Reforma Tributária: a pressão silenciosa que molda os preços e a adaptação das empresas em 2026
Publicado em ND Mais
Especialistas alertam para o impacto potencial no setor de serviços e a complexidade da transição, sem aumentos imediatos, mas com ajustes no horizonte
Mesmo antes de entrar plenamente em vigor, a Reforma Tributária já começa a influenciar o comportamento de empresas e consumidores no Brasil. Essa influência se manifesta na preparação e adaptação do mercado. A mudança promete simplificar o sistema de impostos, mas não necessariamente reduzir a carga – e é justamente essa diferença que tem gerado dúvidas e apreensão sobre possíveis impactos nos preços. Um dos setores mais sensíveis a essas mudanças, o de serviços, já se organiza para absorver ou repassar custos, dependendo do cenário.
Reforma tributária já impacta o mercado, com dúvidas sobre custos e reflexos nos preços, especialmente no setor de serviçosFoto: Freepik/Reprodução/ND MaisMesmo antes de entrar plenamente em vigor, a Reforma Tributária já começa a influenciar o comportamento de empresas e consumidores no Brasil. Essa influência se manifesta na preparação e adaptação do mercado. A mudança promete simplificar o sistema de impostos, mas não necessariamente reduzir a carga – e é justamente essa diferença que tem gerado dúvidas e apreensão sobre possíveis impactos nos preços. Um dos setores mais sensíveis a essas mudanças, o de serviços, já se organiza para absorver ou repassar custos, dependendo do cenário.
Aprovada e já em fase de transição, que se estenderá até 2033, a reforma substitui tributos como PIS, Cofins, ICMS e ISS por dois novos: a CBS (federal) e o IBS (estadual e municipal). Ambos seguem o modelo de Imposto sobre Valor Agregado (IVA), no qual cada empresa paga imposto apenas sobre o valor que adiciona ao serviço ou produto. Isso elimina a chamada tributação em cascata, permitindo o desconto de tributos pagos ao longo da cadeia.
Especialistas explicam que o modelo funciona melhor para setores que compram muitos insumos, como a indústria, que consegue gerar créditos tributários ao longo da cadeia. “Já o principal custo do prestador de serviços é a folha salarial, que não gera créditos de CBS e IBS”, explica o tributarista Lucas Barducco, do escritório Machado Nunes Advogados. “Quando a empresa tem menos créditos para abater, o tributo efetivo pesa mais no preço.”
Esse é um dos motivos pelos quais o setor de serviços, que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é responsável por cerca de 70% do PIB e dos empregos no país, é apontado como o mais exposto às mudanças. Hoje, muitos serviços pagam entre 5% e 15% de tributos sobre consumo. Com o novo modelo, essa carga pode se aproximar de 25% a 28%.
Efeito prático da Reforma Tributária
Para entender o potencial impacto no dia a dia, é preciso olhar para a lógica da reforma. O novo sistema permite que empresas descontem tributos pagos em despesas como insumos e serviços contratados. No entanto, como a maior parte dos custos no setor de serviços está concentrada na folha de pagamento, que não gera crédito, essas empresas acabam tendo menos possibilidade de compensação – o que pressiona a carga final.
Esse cenário já mobiliza setores específicos. A Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), por exemplo, classificou a reforma como um alerta para a educação privada. A entidade aponta que a mudança pode alterar a estrutura de custos das escolas e, ao longo do tempo, impactar as mensalidades, especialmente por se tratar de um segmento intensivo em mão de obra.
Educação privada em alerta: reforma tributária pode mudar custos das escolas e pressionar mensalidades ao longo do tempo.Foto: Agência Brasil/Reprodução/NDNo dia a dia, o efeito tende a aparecer justamente em despesas recorrentes das famílias, como mensalidades escolares, academias, serviços de streaming e outras assinaturas. Barducco cita um exemplo concreto: “Hoje uma escola paga cerca de 6% sobre a mensalidade. No novo modelo, essa carga pode subir para algo entre 11% e 12%”. Ainda assim, ele ressalta que o repasse ao consumidor não é automático nem uniforme.
Essa mesma leitura aparece na análise do economista Marcos Melo, professor de finanças do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) Brasília. Segundo ele, o setor de serviços deve, de fato, enfrentar maior pressão de custos, mas isso não significa que todos os preços vão subir na mesma proporção. “O setor é bastante diverso. Em alguns casos, as empresas podem absorver parte dos custos para não perder clientes. Em outros, o repasse pode ser maior”, afirma.
Mesmo com esse cenário de pressão potencial, especialistas evitam cravar que a reforma já esteja encarecendo o custo de vida em 2026. O momento atual ainda é de transição e adaptação. “É preciso separar dois fenômenos distintos: o impacto tributário real e o comportamento do mercado”, explica Sidney Torres, professor e advogado tributarista da Castilho Torres Consultoria.
Segundo ele, a cobrança efetiva dos novos tributos ainda não começou de forma plena, o que significa que reajustes neste momento não refletem necessariamente aumento real de carga. “Em 2026, outros fatores devem pesar mais sobre os preços do que a própria reforma”, afirma.
Essa cautela é reforçada por Marcos Melo, que destaca que ainda não há evidências concretas de aumento generalizado de preços causado pela reforma. “Ainda não é momento para se preocupar com uma elevação significativa no bolso do consumidor”, diz. Ele lembra que a proposta foi desenhada para manter a carga tributária global estável, o que significa que aumentos em alguns setores podem ser compensados por reduções em outros.
Empresas em adaptação e desafios da transição
Ainda assim, o comportamento das empresas já começa a mudar. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o foco neste início de 2026 está na adaptação técnica e operacional. “O movimento das empresas é, primordialmente, de adaptação técnica e sistêmica”, afirma o consultor da reforma tributária da CNC, Gilberto Alvarenga. “O foco está na atualização de softwares e processos internos para garantir a conformidade com a CBS e o IBS.”
Empresas já se adaptam à reforma: foco em atualizar sistemas e processos para atender às novas regras de CBS e IBS, aponta a CNC.Foto: Freepik/Reprodução/ND MaisEsse processo, no entanto, tem custos. De acordo com a CNC, cerca de 78% das empresas consideram alto o investimento necessário em tecnologia para operar no novo modelo. Além disso, a convivência entre o sistema antigo e o novo até 2033 aumenta a complexidade, especialmente para pequenas e médias empresas.
“Essa dualidade pode gerar incertezas na precificação, principalmente para empresas que não têm estrutura para lidar com dois sistemas ao mesmo tempo”, explica Alvarenga. Segundo ele, 64% das empresas apontam essa adaptação como o principal desafio da transição.
Diante desse cenário, surge uma preocupação recorrente: o risco de reajustes baseados em expectativa, antes mesmo de um impacto tributário concreto. Para Marcos Melo, esse risco existe, mas tende a ser limitado pela própria dinâmica de mercado. “Há possibilidade de reações precipitadas, mas empresas que exagerarem nos preços tendem a perder competitividade”, afirma.
A CNC também aponta que o novo modelo pode, por outro lado, ampliar a transparência. Com os tributos sendo destacados na nota fiscal, o consumidor passa a ter mais clareza sobre o que está pagando. “Qualquer movimento de reajuste será mais facilmente identificado”, diz Alvarenga.
Governo Alerta Contra Aumentos Injustificados
O Ministério da Fazenda reforça essa leitura. Em respostas enviadas ao portal ND Mais, a pasta afirma que não há base técnica para aumentos preventivos elevados neste momento. Segundo o governo, a transição foi desenhada para evitar impactos abruptos, com redução gradual dos tributos atuais à medida que os novos são implementados.
“Não vislumbramos uma ‘dupla pressão’ tributária real”, informou o Ministério da Fazenda. O governo também alerta que aumentos injustificados podem ser enquadrados como prática abusiva, passível de fiscalização pelos órgãos de defesa do consumidor.
Outro conceito que aparece nesse debate é o da chamada “ilusão tributária”, quando o consumidor paga mais sem perceber exatamente o motivo. Para Marcos Melo, no entanto, ainda é cedo para afirmar que esse fenômeno já esteja em curso. “É prematuro falar nisso agora”, diz. Já Sidney Torres avalia que, ao longo da transição, pode haver dificuldade em distinguir o que é aumento real de custo, adaptação ao sistema ou estratégia de mercado.
O impacto da reforma, segundo os especialistas, não será imediato nem uniforme. “Ele chegará em ondas, não de uma vez”, explica Torres. A primeira fase mais concreta começa a partir de 2027, com a entrada em vigor da CBS, e se intensifica ao longo dos anos seguintes, com a implementação gradual do IBS até 2033.
Até lá, o cenário é de adaptação e incerteza. Para o consumidor, a recomendação é acompanhar, comparar preços e desconfiar de reajustes fora do padrão. No longo prazo, a promessa é de maior transparência – mas, no curto, o desafio será entender o que, de fato, está por trás das mudanças no preço final.